segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Primavera das mulheres

*Rosana Leite Antunes de Barros


Apesar da ocorrência de vários fatos lamentáveis contra as mulheres, o ano de 2015 apresentou um saldo positivo, no que diz respeito ao debate sobre o tema na internet. Ficou conhecido como o ano da primavera das mulheres.
O feminismo tomou conta de rodas de conversa, invadiu as ruas, foi assunto de prova, tendo as redes sociais se tornado aliadas na luta. Aquelas que sofreram assédios sexuais quando crianças, e, em qualquer fase da vida, resolveram contar todo o drama sofrido, sensibilizando aos mais descrentes. A internet se tornou campo de batalha contra o machismo, em todas as suas facetas. Campanhas, denúncias e hashtags exibiram a problemática, popularizando os movimentos, e mostrando o que passam as mulheres no dia a dia.
Foi formada uma crença, uma esperança feminina, de que um dia, o patriarcalismo será abominado naturalmente. Muitos se indignam. Outros, entendem como mimimi de mulher. E, ao se tratar da violência sexual, aqueles que não sentiram na pele o que é ter uma vítima por perto, mais precisamente na família, creem que é ela quem incita o delito.
Os feminicídios dentro dos lares acontecem, em sua grande parte, pela ingenuidade feminina em não acreditar que as ameaças possam se concretizar. Muitas não se deram conta de que a violência doméstica e familiar não se constitui apenas em agressões à integridade física. O entendimento de que o ciúme se constitui em prova de amor, infelizmente, persiste. Não há um juízo sobre o ciclo da violência dentro dos lares. Também não houve a compreensão de que os filhos reproduzem, com fidelidade, o que aprendem com os pais.
Houve grande burburinho durante todo o ano de 2015 nas redes sociais, sobre o feminismo. Segundo dados apresentados pelo site Think Olga, de janeiro de 2014 a outubro de 2015, as buscas por "feminismo" e "empoderamento feminino" cresceram 86,7% e 354,5% respectivamente. A Google Trends afirmou que a hashtag #primeiroassedio teve mais de 11 milhões de buscas. Jout Jout publica um vídeo listando comportamentos que caracterizam relacionamentos abusivos, que viraliza e vira a campanha #nãotiraobatomvermelho, e recebe mais de 1,6 milhões de visualizações. Nasce o Movimento Vamos Juntas, para mulheres se ajudarem em situações de risco, e a fanpage atinge 250 mil fãs. A Marcha das Margaridas reúne 70 mil pessoas na maior mobilização de mulheres da América Latina, em Brasília\DF, e rende mais de 26 mil tweets. O tema da redação do ENEM gerou 106 mil posts nas redes sociais, entrando nos Trending Topics do Twitter. O #agoraéquesãoelas fez com que homens cedessem seus espaços na mídia para que mulheres pudessem publicar textos sobre feminismos, rendendo 5 mil menções à hashtag. O projeto de lei que dificulta o acesso ao aborto legal fez criar a #mulherescontracunha, que foi mencionada mais de 40 mil vezes, 61% por mulheres. A Marcha das Mulheres Negras reuniu 10 mil pessoas contra o preconceito, recebendo mais de 35 mil tweets em solidariedade. A #meuamigosecreto foi a forma de sensibilizar sobre as atitudes machistas que passam despercebidas diariamente, que foi mencionada 170 mil vezes só no Twitter.
As redes sociais somaram mais de 42 mil menções às propagandas machistas, e as mulheres agiram denunciando marcas e boicotando-as. A população, nem de longe, está compactuando em ser tratada como massa de manobra.Que em 2016 essa primavera possa florir, espalhando o bom perfume da igualdade e dignidade!

*Rosana Leite Antunes de Barros é Defensora Pública Estadual, Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Mato Grosso

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