sexta-feira, 4 de abril de 2014

Até quando culpar a vítima pelo estupro?

Escrito por: Deise Recoaro, Secretária de Mulheres da Contraf-CUT

Quando pensamos em comemorar as vitórias com relação à participação das mulheres nos espaços políticos, mercado de trabalho e nas políticas públicas, contraditoriamente tomamos um balde de água fria ao olhamos para os dados que tratam da violência contra a mulher.

Foi manchete de jornais e destaques nas redes sociais as reportagens que tratavam do constrangimento e violência que as mulheres vem sofrendo nos transportes públicos. Nas rodas de conversa não tinha quem não soltava a famosa frase: "Também, do jeito que ela estava vestida..."


As pessoas nem conhecem direito a vítima, não sabem quantos anos tem, quais eram seus sonhos, se amava ou não alguém, quais eram suas ambições, suas necessidades, seus desejos... Enfim, tudo isto não importa. O censo comum tem que achar um culpado ou uma culpada pelas calamidades e aberrações sociais que não tem coragem de encarar como problema social. Problema este que pode ser explicado pelo velho conhecido machismo.

Uma vítima de violência sexual não sofre as dores somente no corpo. A pior dor é a moral, porque rouba todo sonho de liberdade de qualquer indivíduo. Liberdade para andar onde quiser, de vestir o que quiser, de namorar quem quiser...

O Ipea presta um grande serviço para a humanidade ao realizar a pesquisa que trata da percepção da sociedade sobre a violência contra mulher. É importante porque revela em números os sentimentos e comportamentos reproduzidos ao longo da nossa história, que estabelece uma relação de poder e posse de um ser sobre outro, ou seja, do homem sobre a mulher.

Não estou tratando de experiências individuais, nem muito menos julgando este ou aquele homem. Estou falando de um fenômeno social, que oprime e violenta não somente as mulheres, mas sim toda sociedade. Pois, quando uma mulher é vítima de violência, ela fere também os pais, os familiares e filhos desta mulher.

Não podemos perder a capacidade de se indignar diante da violência, das diversas formas de violência. Temos que desnaturalizar a cultura de posse de um ser sobre outro. As mulheres não são propriedades. Temos que enfrentar o problema com a seriedade e amadurecimento dignos de seres humanos e não de bicho indomável, que devemos separar em jaulas, como se separa os animais nos zoológicos.

Queremos que mulheres e homens tenham direito sobre seus corpos e de poder ir para onde quiserem e viver plenamente suas liberdades.

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