terça-feira, 19 de junho de 2012

Entrevista – Capitalismo é predador também com mulheres, afirma Vera Bertoline


Por Thaisa Pimpão, estagiária do Centro Burnier Fé e Justiça

No mês em que Cuiabá saiu às ruas aderindo ao movimento nacional que é a Marcha das Vadias, a professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Vera Lucia Bertoline, uma das articuladoras desse protesto na capital mato-grossense, fala, nesta entrevista, por que a mulher a mulher precisa reagir urgentemente e de forma incisiva ao machismo e a violência de gênero.


Qual o intuito da Marcha das Vadias em Cuiabá e quais os desafios para uma manifestação como essa acontecer?
R: A Marcha das Vadias, gerada por uma situação que ocorreu no Canadá, foi incorporada por alunos e alunas do curso de Serviço Social da UFMT. Começou dentro da Universidade e se expandiu. Havia uma preocupação muito grande porque o objetivo era nobre, o desejo era o de denunciar uma situação que se tornou corriqueira entre a população: a culpabilização da mulher pelos atos de violência que acontecem contra ela. Então, o intuito da Marcha foi exatamente o de fazer uma denúncia de que os casos de violência contra a mulher são fatos reais, que acontecem no dia-a-dia e que as autoridades, por sua vez, não tomam atitudes.
Outra preocupação era com relação à data, pois por ser em um sábado à tarde, talvez não teríamos público. Esse processo foi muito interessante porque elas construíram tudo isso em um mês. Oficinas para elaboração de cartazes, músicas, palavras de ordem para serem usadas no dia do protesto. No meu ponto de vista, a Marcha atingiu o seu objetivo, mesmo com o período tenso que precedeu a manifestação, mesmo com a imprensa tecendo críticas e alegando que a própria denominação depunha contra todo um ideário de denúncia, por conta do termo “vadia”, mas conseguimos superar isso. Mas com certeza, no ano que vem vai ser muito maior.

Voltando um pouco e entrando no contexto histórico, quando começou esse conflito de gêneros (homem x mulher)? É possível determinar uma data?
R: A afirmação “desde que o mundo é mundo essa relação conflituosa entre homens e mulheres existe” não é verdade. Vários estudos têm demonstrado que na sociedade primitiva homens e mulheres eram seres cooperativos: não havia uma definição de quem tinha mais força, quem mandava, quem não mandava, se a mulher pertencia exclusivamente àquele homem ou não.  O que havia era uma mística de que as mulheres tinham um “quê” de divindade, razão pela qual a gente tem muitas deusas, por exemplo, porque não se identificava qual era o papel do homem no processo de reprodução humana. Então, o que se observava é que em uma determinada lua a mulher parava de sangrar, seu ventre começava a dilatar, passava tantas luas e ela paria, seu peito enchia de leite e ela amamentava… Isso era divino, místico. E aí eu digo que bastou a primeira cerca para esse mito ruir.  Quando os humanos se estabeleceram e deixaram de ser nômades,  eles tiveram que começar a produzir, domesticar animas selvagens e ao fazer isso, eles passaram a observar que em uma determinada lua, o cavalo cobria a égua. A partir disso, a mística dessa divindade, de colocar a mulher como “fora da realidade”, fora do concreto, acabou. E então os homens passaram a entender que eles tem participação do processo de reprodução e, nesse sentido, começaram a estabelecer regras de conduta: a mulher que era dele, era só dele. Tempos seguintes, mesmo depois da Revolução Francesa, o código napoleônico, por exemplo, autorizou o homicídio de mulheres que fossem flagradas cometendo adultério.
Esse processo histórico sociocultural reforça esse tipo de comportamento que estabelece um apartheid entre homens e mulheres. A sociedade acaba criando uma lógica binarista: homem é forte, mulher é fraca; homem manda, mulher obedece. Foi somente na década de 60 que as mulheres começaram a protagonizar um enfrentamento pra essa situação.  O movimento feminista começa a denunciar que essas práticas são de exclusão, que subalternizam as mulheres e que precisam ser revistas. É nesse momento que as discussões de gêneros e também as pesquisas com essas perspectivas vão demonstrar que as sociedades, em especial as capitalistas, se estruturam não só no eixo econômico, como também por gêneros e grupos étnicos.

Já existiu uma sociedade matriarcal?
R: Segundo alguns estudos, há algumas confusões com relação a isso. Antigamente, o pensamento era que os filhos vinham naturalmente da mãe, não havia uma preocupação com quem era o pai, não havia um domínio do macho sobre a fêmea – essa sociedade é matrilinear. Quando se descobriu o papel do homem no processo de reprodução humana foi que surgiu a linha patriarcal, a hereditariedade etc. Até onde eu estudei, não existiu sociedade matriarcal, apenas matrilinear.

E o machismo? O uso desse termo, quando começou?
R: O conteúdo ideológico do machismo é radicalmente diferente do feminismo.  É claro que também não podemos falar de um feminismo, pois são vários, com diferentes perspectivas teóricas e ideológicas. Existe um feminismo que também antagoniza com os homens. Eu, por exemplo, pertenço a uma linhagem feminista socialista que incorpora os homens na luta para uma sociedade emancipada em vários pontos de vista. Quando falamos de machismo, ele é uma ideologia predadora, no sentido de rejeitar os direitos das mulheres, de entender que as mulheres são naturalmente inferiores, que os homens mandam, em especial no espaço da política, alegando que o lugar da mulher é na cozinha. O machismo é herança de uma sociedade patriarcal e vem se fortalecendo com o crescimento do capitalismo – que dá, inclusive, um lugar social para essas mulheres, como se todo espaço público fosse impeditivo para que as mulheres fossem adentro. Então, o capitalismo, além de ser perverso do ponto de vista da exclusão de classes, é muito perverso também com relação à exclusão da mulher dos espaços públicos, ou as incluem em profissões tidas como tipicamente femininas, como se estas fossem desenhadas a imagem e semelhança da mulher e que são profissões historicamente mal remuneradas. Esse é um grande problema, o capitalismo é extramente predador também para as mulheres.

Nós estamos falando dos homens machistas, mas existem muitas mulheres que também seguem essa ideologia. As críticas à Marcha das Vadias mostraram isso de forma muito clara. Você observa que as mulheres também são machistas
R: Sim, claro. Eu digo que ser machista não é privilégio do homem. Na nossa sociedade, temos espaços ideologizados de reprodução, que incorporaram a ideologia do patriarcado: as escolas, todo processo de educação formal, a justiça, os meios de comunicação. São espaços de reprodução da ideologia patriarcal, portanto, todo os seres humanos, machos ou fêmeas, bebem dessa ideologia. E é muito interessante porque, quando se faz estudos com casais homossexuais, é perceptível que um incorpora o papel do gênero feminino e, o outro, o papel do gênero masculino.  Ou seja, as mulheres também são machistas, pois bebemos todos da mesma fonte ideológica, que tem a supremacia de definir como se comporta um homem e como se comporta uma mulher. Portanto, quando uma mulher vai para a Marcha das Vadias, carregando um cartaz escrito “eu não nasci da sua costela, você que nasceu do meu útero” ela se vê julgada, até mesmo por outras mulheres: “isso é um absurdo!”, pode ouvir. Então é preciso que se reeduquem homens e mulheres, numa perspectiva de gênero e numa perspectiva dos direitos humanos.

Na sua opinião, dentro desse contexto, a Marcha das Vadias conseguiu contribuir para que o conceito de uma mudança ideológica se expandisse um pouco mais?
R: A Marcha marcou a história de toda uma trajetória de enfrentamento do movimento feminista em Mato Grosso. A Marcha adensou essas denúncias que já vem acontecendo por aqui: o 25 de novembro, por exemplo, que é o Dia Mundial de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher; o Dia Internacional da Mulher e também a Marcha LGBT. Eu vejo que a Marcha das Vadias reavivou uma discussão que vem ocorrendo esporadicamente, mas de uma forma diferente.  Nas outras manifestações, tudo é mais tenso e, nessa marcha, eu vou me permitir compará-la com a Marcha LGBT. Digo isso porque ela foi lúdica e protagonizou a denúncia de uma cena extremamente perversa, que é a violência contra a mulher, o estupro, de uma forma mais leve. Os sujeitos também eram diferentes das outras marchas: nós tínhamos mulheres e homens muito jovens nesta. E a Marcha das Vadias trouxe incômodo, primeiro pelo título, que abriu discussão nas escolas, nos botecos, por onde passou e, segundo, pelas palavras de ordem que mostravam a que veio aquela manifestação.
Me chamou muito a atenção também a atuação dos homens na Marcha. Eles foram muito atuantes, também pegaram o microfone, se pintaram como as meninas… Foi muito interessante. Esse foi o diferencial. O objetivo foi atingido.

Fonte - Centro Burnier

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